Todos já ouvimos falar, senão sentimos na própria pele, que estamos vivendo em um estado policial. Medidas de quebra de sigilo telefônico e de dados em geral proliferam nos procedimentos de natureza criminal, transformando em regra o que deveria ser exceção. Intimidade e privacidade viraram artigos de luxo para quem ainda lhes dá importância. Isto não é novidade.
A novidade é que a bisbilhotagem chegou e se instalou no ambiente familiar, tendo, como principal alvo, crianças e adolescentes. Aqui, a “proteção” destes é o que constitui o tal “fim” que justificaria o “meio”: a irrestrita vigilância dos pimpolhos em suas atividades “internéticas”.
As sugestões são as mais variadas: computadores só devem ser instalados em áreas comuns da residência; tenham as senhas de seus filhos; façam incursões diárias nos sítios de relacionamento deles. Sem nenhum pudor, monitorem, monitorem e monitorem! A justificativa é comum: é preciso protegê-los e, neste caso, os fins justificam os meios.
Será? Tenho dúvidas.
Não sei se, por vincos da profissão de Advogada ou pela educação liberal que tive a sorte de receber de família, esta “bisbilhotagem”, encarada de forma tão natural entre pais e educadores, tem provocado em mim um certo desconforto, mesmo compreendendo a boa intenção da maioria de seus autores.
A mim parece que este tipo de vigilância, além de não servir aos fins que a justificariam, só tem aumentado a distância entre pais e filhos e tornado ainda mais rara uma prática que, embora mais trabalhosa, sempre me pareceu mais digna, ética e saudável em termos de educação: a prática da conversa aberta e franca. Acreditem: não há saída fora do diálogo.
Agir sorrateiramente, trair a confiança de um jovem, invadir a sua privacidade são atitudes que só servirão para infantilizá-lo, diminuindo-lhe a capacidade de pensar e agir com responsabilidade. Jovens irresponsáveis são como balas perdidas. Ninguém controla. Não tenham esta ilusão.
A confiança que os nossos filhos depositam em nós não deve ser menosprezada e não merece ser traída, em qualquer circunstância. Privacidade e intimidade são direitos de todos, mesmo dos mais jovens. Respeitar estes direitos e tomar o caminho do diálogo aberto é o melhor exemplo que podemos dar aos nossos filhos e a melhor maneira de protegê-los.