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janeiro 14, 2010

Zilda Arns, a pastora das crianças/ Por Sônia Araripe

13/01/2010 | 21:20 

Sônia Araripe, Editora de Plurale em site


Nos últimos tempos, com a internet e todo avanço da tecnologia, qualquer um, com seu celular ou máquina, pode, de alguma forma, também informar jornalisticamente, um acontecimento.
 
Assim, as notícias mais factuais, o dia-a-dia, continuam com seu espaço, sua importância, mas um jornalista terá sempre seu papel: se o noticiário no dia seguinte já for “velho”, lhe restará a importante missão de fazer a análise, um artigo, um texto diferenciado para quem quer saber algo mais sobre aquele assunto.
 
Fomos dormir ontem (12/01) apenas com a notícia do terremoto no Haiti, sem muitos detalhes. Acordamos hoje (13/01) já com um cenário desolador. Eram  milhares de feridos, um  número incalculável até agora de mortos, prédios desabados ... E, por volta de 11h, tivemos a confirmação que D. Zilda Arns Neumann, fundadora e coordenadora da Pastoral da Criança, estava entre as vítimas fatais do terremoto na capital, Porto Príncipe.
 
Aos 75 anos, ela tinha ido em missão oficial, para abrir uma representação da Pastoral no Haiti. No instante do terremoto – o maior do país, que é um dos mais pobres do planeta, nos últimos 200 anos – ela falava para cerca de 150 religiosos sobre o programa. Fecho os olhos e imagino... quase posso ouvir sua voz. Com aquele forte sotaque do Sul, puxado, em um tom quase professoral, firme, mas sempre doce.
 
Sociedade fraterna - Foi esta mesma voz que nos atendeu algumas vezes para entrevistas. A última foi na edição de lançamento de Plurale em revista, em setembro de 2007. Com muito orgulho, ela nos falava sobre os progressos da Pastoral. Contava também sobre o Brasil em transformação pelas mãos de voluntários, gente que, como ela, doava parte de seu tempo (no caso dela era integral) em prol do próximo. Principalmente de crianças. Ela também chegou a desenvolver a Pastoral do idoso, mas eram as crianças, sem dúvida, sua maior missão.
 
Esta entrevista nos marcou muito. A médica de formação mostrou-se uma grandiosa líder social. Com visão ética e de futuro não só deste Brasil. Mas do Brasil de nossos filhos e netos. Lembrou que todos deveriam mergulhar de alguma forma no mesmo processo de doação voluntária.
 
“A construção de uma sociedade fraterna, na qual haja Justiça, depende das atitudes de cada um de nós”, destacou. Tinha acabado de voltar de uma das tantas viagens aos confins da Amazônia. Nunca reclamava de nada, das distâncias, dos aviões pequenos e dos sustos provocados pelo mau tempo. Para ela, tudo tinha um colorido especial ao ver o sorriso da mãe de uma criança faminta que deixava a linha do risco da desnutrição e engordava a olhos vistos. “As ações da Pastoral salvam, a cada ano, 5 mil vidas”, lembrou.
 
Era positiva, empenhada, envolvida até a alma no programa que criou lá atrás, em 1983, juntamente com Dom Geraldo Majela Agnello, Cardeal Arcebispo Primaz de São Salvador da Bahia, que na época era Arcebispo de Londrina. Foi então que desenvolveu a metodologia comunitária de multiplicação do conhecimento e da solidariedade entre as famílias mais pobres, baseando-se no milagre da multiplicação dos dois peixes e cinco pães que saciaram cinco mil pessoas, como narra o Evangelho de São João. Disseminou o conhecimento do soro caseiro e da multimistura, um pó reforçado para combater a desnutrição infantil. A educação das mães por líderes comunitários capacitados revelou-se a melhor forma de combater a maior parte das doenças facilmente preveníveis e a marginalidade das crianças. Após 25 anos, a Pastoral acompanha mais de 1,9 milhões de gestantes e crianças menores seis anos e 1,4 milhão de famílias pobres, em 4.063 municípios brasileiros. Chegou também em cerca de 20 países.
 
Por causa do trabalho, conquistou vários prêmios nacionais e internacionais. Foi, por quatro vezes, indicada para o Prêmio Nobel da Paz. Soube, como poucos, fazer a revolução do conhecimento e da união em prol de uma causa nobre: as crianças. Construir rede, conseguiu o envolvimento das mães, das voluntárias, cativou empresários, conquistou a adesão de políticos. Certa vez, um executivo privado lhe falava do desânimo diante de tamanha corrupção política. Ela concordou com o interlocutor, mas lhe alertou que se não se engajasse, de alguma forma, na vida pública da sociedade, seria difícil mudar este cenário. Ganhou ali, mais um “cordeiro” para o seu rebanho.
 
 
A mãe - No início de 2008, fazíamos uma visita para conhecer resultados de projeto social mantido pela Fundação Odebrecht, no interior baiano, região de baixo IDH, quando peço o cartão do entrevistado. Rogério Arns. O rosto e o sotaque já denunciavam, mas, apenas para comprovar, perguntei: “Parente de D. Zilda?”. Nem precisaria resposta, O brilho dos olhos o denunciou. E o especialista em projetos socioambientais, orgulhoso, confirmou sim ser filho da pediatra e sanitarista.
 
O que era para ser uma entrevista simples, sobre a região reflorestada em meio a uma grande devastação ocorrida no passado – com grandes melhorias sociais – acabou em bate-papo de jornalista encantada e de filho orgulhoso. Contei que Plurale em revista tinha acabado de nascer alguns meses antes. No primeiro número, a primeira entrevista pingue-pongue, tinha sido justo com a fundadora da Pastoral da Criança. Tornou-se uma espécie de “madrinha” nossa, guru de nossos ideais e de tantos e tantos outros. A médica, que era tratada como “mãe” por todos, também era um pouco a nossa mãe que ajudou a embalar e acalentar nossos sonhos. Sempre lembrando que nunca é hora para o desespero e sim de ter calma e acreditar que o bem sempre vence.
 
Ficamos os dois assim, devotos de uma só “santa”, porque não dizer. Transpondo para o terreno instável das vaidades humanas, tão fugazes, como dois jovens falando sobre seu ídolo de rock. Mas o momento, hoje relatado, mostra sua magnitude.
 
Rogério, o filho (ao todo são cinco), contou que D. Zilda sempre foi assim: abnegada, muito devota não só a Deus, mas principalmente de um ser tão pouco acreditado hoje em dia – o outro. Independente de credo, cor ou raça. “Ela sempre esteve pronta para ajudar os outros, fosse quem fosse, na hora necessária”, contou o herdeiro. Com um capítulo da vida pessoal pouco lembrado: precisou criar os cinco filhos praticamente sozinha depois do falecimento do marido, em 1978, sem jamais desistir da causa pública. E o que parecia ser só força interior da médica se transformou, com sua energia pessoal, em uma verdadeira onda, uma onda do bem, capaz de motivar cerca de 260 mil voluntários não só nos diferentes pontos deste Brasil tão continental, tão gigantesco, de carências tão urgentes, mas também em projeto internacional.
 
Este artigo, Rogério e família, é para vocês e para todos os que acreditam ainda ser possível enxergar no próximo, no outro, a esperança de um Brasil melhor. De fazer, cada um a sua parte. Como disse seu tio, Dom Paulo Evaristo Arns, “não é hora de perder a esperança.”
 
Missão de paz - Desde que se afastou do dia-a-dia da Pastoral, há cerca de três anos, D. Zilda tinha como sua maior prioridade justamente levar a mesma iniciativa para outros países. Continuava missionária: estava no Haiti nesta missão, de paz. Morreu falando para religiosos em uma igreja na periferia de Porto Príncipe. Fazendo o que mais amava: cuidar do próximo.
 
Algumas pessoas fizeram a comparação do trabalho de D. Zilda com o de Sergio Vieira de Mello, também brasileiro, também falecido no exterior, ajudando outros. Além de alguma semelhança do destino – serem grandes brasileiros com imensa projeção internacional, heróis geniais e terem morrido em missões humanitárias - muito pouco há para avançar nesta correlação. A médica tinha um perfil messiânico, muito religiosa e, apesar de ter sido a maior guerrilheira na luta contra a desnutrição infantil, não atuou em grandes guerras em países estrangeiros. Sergio era funcionário de carreira da ONU e desde cedo envolveu-se com missões humanitárias fora do Brasil, ajudando milhares de pessoas. Sempre trabalhou em zonas de conflito. Morreu em um atentado, no meio da Guerra do Iraque.
 
 
p.s. Continuamos na esperança por boas notícias de outro brasileiro, Luiz Carlos da Costa, segundo homem na hierarquia da Missão da ONU no Haiti. Ele foi nosso entrevistado na edição 10. À família, nosso abraço.
 
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Principais trechos da entrevista de D. Zilda à Plurale, em setembro de 2007:
 
“A construção de uma sociedade fraterna, na qual haja Justiça, depende das atitudes de cada um de nós.”
 
 
“Devemos valorizar as relações humanos e sociais, não só o que tem valor econômico e financeiro, e consolidar a ética orientada pela honestidade, pela solidariedade e a co-responsabilidade social.”
 
 
“O papel do Estado é executar políticas públicas sem desviar dinheiro”
 
 
“As ações da Pastoral salvam, a cada ano, 5 mil vidas”
 
“Os profissionais liberais, autônomos, trabalhadores públicos e privados também precisam ter compromisso com o bem comum. A pobreza, a baixa escolaridade, a violência e a corrupção só serão combatidos com a soma de esforços.”
 
 
“Com a inflação controlada, as famílias têm mais condições de ter acesso contínuo aos alimentos, o que é importante para o controle da desnutrição. O Brasil, mesmo assim, continua entre os países com maior índice de desigualdade do mundo.”

Um comentário:

Maria Lúcia Poyares disse...

Soninha
Sòmente a espiritualidade
pode nos confortar após tão sentida perda.
Comovente seu post.