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outubro 26, 2010

A crônica da morte anunciada de um colchão

De tempos em tempos, elejo um objeto da casa como o alvo de meus pensamentos. Para ser mais exata, como a fonte de todas minhas mazelas. E não sossego até substituí-lo, em um mecanismo semelhante aos ritos de passagem do réveillon: deposito no novo objeto todas as minhas esperanças de uma vida melhor.

Desta vez, o escolhido foi o colchão, que concorreu com o sofá pelo posto de causa das minhas dores de coluna, das constantes reclamações do namorado, do sono desregulado e de uma série infindável e repetitiva de reclamações que tenho sobre a vida, o mundo e os seres. Afinal, ele fora comprado às pressas; não tive tempo de escolher o modelo, a densidade ou nada assim. Passara por dois apartamentos e por uma mudança traumática, pois, para economizar o frete, eu concluíra que poderia fazer a mudança nas costas, com a ajuda dos meus amigos (que carregaram quase tudo, no final). E, embora seja novo, eu fiquei velha, e preciso de um colchão que compense as dores provocadas por horas de estudo ou trabalho sentada em minha inaptidão para os exercícios físicos.

Uma vez comprado o colchão novo, de molas ensacadas, dez anos de garantia, aloe vera no tecido e milhões de firulas do gênero, imediatamente transferi para ele todas as minhas neuroses. Comecei a me imaginar sentada em cima dele durante os dez anos de garantia olhando para a parede, pois não tinha dinheiro para fazer mais nada que não fosse pagar as parcelas da caríssima novidade. Chorei, reclamei, resmunguei e, em meio a tantas chorumelas, o colchão antigo foi esquecido. Até que vi o comentário horrorizado de um amigo no Facebook: “O seu colchão??? Mas qual o problema dele?”

Estranhamente, eu, que sou apegada a todos os meus objetos, não levei em conta que teria de me desfazer do antigo colchão. Aquele que me acolhera nas horas difíceis e presenciara minhas pequenas tragédias, alegrias, romances e traições... que assistira a difícil tarefa de me tornar adulta, alugando meu primeiro apartamento com contrato de 36 meses – e os preços que paguei por isso. O colchão no qual sempre fui VIP, refestelada na cama enorme e muito dona da minha vida, no qual não haveria de ter manchas que não fossem de lágrimas ou champanhe...

Agora, tenho medo de voltar para casa e encará-lo. Como contar que preciso de uma mudança radical na minha vida, e que ele vai se mudar? Como convencê-lo a tomar um espumante comigo para comemorar as mudanças de um novo ano que já começa para nós dois?

Preciso inaugurar uma linha de tradição de rituais de despedida de objetos inanimados. Alguma ideia? ;)

2 comentários:

Maria Lúcia Poyares disse...

Sim.
Trocar de colchão.
Afinal de contas a vida não é uma eterna mudança?

Mônica Angeleas disse...

hahaha
suas histórias são hilárias!!!