Dedicado às mulheres inteiras e ativas de todas as idades, cores e formas. Mulheres que interagem e abraçam a vida como der, puder e vier.
Sempre desejadas!








maio 02, 2010

Dia das mães



Cláudia Alencar
Por que as lágrimas correm


Hoje é aniversário de 96 anos de mamãe.
Nasci, quando ela tinha 36 anos.
Morreu aos 86. Moça. Moça.
Por que?
Todo mundo vivendo bem mais tarde, hoje em dia. Antunes Filho estreando, Lima Barreto, Niemeyer projetos, Krasberg aos 90, não se sentou aos 60, Tomie Otake, esculturando.
Por que mamãe não está mais criando, como sempre fez?
Por que ela não está comigo,comigo, comigo?
Mãe!
Nem vou falar mais. Uma dor, um aperto na garganta, uma vontade de chorar feito bebê, meu peito começa a balançar não enxergar mais nada, pena de mim, de não ter mais seu solo, seu colo, sua voz, seus ouvidos, seu olhar, seu entrar no quarto, e nariz escorre e lágrimas correm, correm de quem? de quem?
Meu Deus? de quem essas benditas, malditas lágrimas correm?
Fazem cócegas no nariz, bailam no queixo, olhos se enchem de nuvens, mas mesmo assim mamãe não está aqui e as lágrimas continuam a correr.
Soluços batem na porta , pulmão esmurra, balanço, socos comandam socando e não quero apertar mais esse botão da emoção, que tem autonomia se aperta sozinho, nada domino e mamãe não vem.
Mãe. Vem, vem, vem! Mãe! Por favor.
Um pouquinho em forma de sorriso, de alegria, fala aquela poesia, mãe, canta pra mim, me dá seu vatapá, seu acaçá, não, pimenta não, mãe, você sabe que não gosto, me dá seu pudim, oba, bota mais calda, ah! Mãe,faz suas nuvens? não quero comer comida, só nuvens, e amanhã quero gemada na cama, tá? Vou ficar dentro do edredom, esperando, depois você canta pra mim:
“Era o meu lindo jangadeiro de olhos da cor verdes do mar e seu olhar lindo e traiçoeiro, mentiu-me tanto seu olhar” aquela da cabocla Tereza que foi com outro se casar, e obrigada, pelas flores e pelo sal, eu sei, eu sei, que são, para dar abundância e trazer alegria, para minha nova casinha, mãe aperta aqui o vestido verde mãe, ái!! me espetou! to brincando, boba, não me conhece? agora ficou folgado, mais, não, menos, que assim não respiro, isso, assim tá bom, nossa como tá bonito... mãe, me dá o aluá que você fez pro Gil? e depois vem comigo brincar na poça da rua, vem, que deu enchente, e a gente tem um mar bem na nossa frente, vamos brincar, mãe, vá, só um pouquinho, vem, então... não é bom? Chuta a água assim ó, chuta, chuta, agora quem me pegar é um bobão.
Não quero essa boca escancarada de choro, esses olhos enevoados como catarata, essa mascara de tragédia da solitária de filha, que já tem dez anos sem suas mãos rodeando corpo, fazendo cafuné, dizendo, minha gatinha querida, te admiro tanto, tanto, te amo tanto que até Deus tem ciúmes.
E você pequena naquele caixão. Não era você, não. Não era você, mãe. Não era! Pequenina. Só suas mãos eram você, tão lindas, mesmo cruzadas, como fazem, por que fazem assim como se você estivesse, pensando na vida? Já pensou tanto, deu tantas aulas de biologia, pra que essas mãos cruzadas? Você é vida avoada no éter da exitencia..
Não podiam colocar seus braços ao lado relaxados? Quando na vida a gente fica com as mãos cruzadas, assim? Só quando imitamos mortos. Por que elas lembram que você morreu. Podiam colocar um braço com as mãos nos cabelos o outro com as mãos na barriga, descansando como quem não quer nada.. ou os dois braços, pra cima na cabeça como se estivesse de papo pro ar, pescando no rio de jereré, lá tem peixe bom...
Que belas mãos jamais encontradas você tinha e tem. Eu as carrego, mas como herança aguada, que são linas não desdenho e são muito elogiadas, obrigada, mas não se comparam com as que você possuía: de pianista, de bailarina, de rosas, de palmas, de artista sem ser, mas sendo..
Mãos que acalmavam, calavam dores, mas foram esmagadas naqueles tempos, lembra mãe? pra que lembrar, Deus meu? Tempos que elas não conseguiam afagar mais ,décadas de campos de concentração, de abusos que nem você, nem eu, nem meu irmão tínhamos coragem, força e condição para enfrentar tamanha maldição.
Mas passou.
Passou o bom e passou o mal.
Há dez anos que você mora em mim.
Que bom que falei com você, que dei parabéns.
Agora, nada mais soca, corre, provoca.
Quando você se foi veio pra dentro de mim.
Sou eternamente grávida de ti.
Mais uma lágrima veio visitar, mas essa andou não correu
Todas as lágrimas corriam de dó de mim..

2 comentários:

Maria Lúcia Poyares disse...

Claudia, a homenagem à sua mãe, para mim, se transformou em um poema de amor e me levou às lágrimas. Acredito que toda “inteirativa”
que, como eu, não tem sua mãe por perto para receber os mesmos “chamegos” não resistirá a imensa e imensurável saudade ao ler seu post.
Um carinho no coração

Claudia Ebert disse...

Adorei o texto!
Emocionante...
Bjs