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maio 14, 2009

OS OLHOS DE MAMÃE

Cláudia Alencar
Com um nó na garganta sentou-se na sala circular aguardando a entrada da mãe.
Não esperou muito.
Um cheiro de jasmim domou o ar vindo de mãos dadas com o adágio da quinta sinfonia de Mahler.
O portal da alma abriu-se e a mãe, não só bela, mas linda, como só elas conseguem ser aos oitenta anos, surge com seu rosto doce, flutuando em direção á filha de olhos fechados.
A emoção da existência arrancou a filha do seu sentar e as duas ficaram frente a frente.
Uma deitada a outra de pé.
A mãe abre os olhos miúdos e a filha mergulha neles de corpo alma e espírito.
O ser criado dentro de outro, adentra o olho esquerdo de sua criadora.
Mãe novamente abrigando filha.
Tudo era escuro e não dava medo.
Subitamente escorrega num tobogã anímico que a leva aos 3 anos, caindo feito fruta madura que hoje é.
O escuro se desfaz e o sol poente da praia deserta colore de rosa seu rosto de criança.
Sua mãe jovem passeia, cantando toadas da infância, para peixes e anjos que antes foram nuvens.
A mãe voa sem asas, planando, dançando, para o encanto desses, agora, tristes mares.
A filha vira-se atrás da retina e encontra seu avô curando enfermos, sabendo que a noite ele irá se transformar em espírito na sessão de mesa branca, curando gente com corpo.
Não busca explicações. É assim.
Vai ao fundo da íris e vislumbra sua cena favorita: o pai andando de mãos dadas com a mãe, se amando, em plena Avenida Paulista dos anos 40, rindo,falando sobre arte, filosofia, com seus sapatos rotos saindo do pé, revelando a meia furada do calcanhar esquerdo. Ela sente a com-paixão da mãe e entende um dos motivos do viver: cuidar do homem amado.
O amor, agora, colore de vermelho vivo o fundo dos olhos e lagrimas de vida vivida começam a encharcá-los obrigando-a a nadar num rio caudaloso que a arrasta até a floresta de trepadeiras, ervas daninhas, sombras, obrigando-a a subir no glóbulo e a ver do alto os espancamentos do pai, a fuga da mãe por atalhos jamais sonhados, numa perseguição cruel que transforma beijos e afagos em tapas, sangue, deixando-os exaustos caídos no chão de urtigas.
Dor ancestral.
Filha, hóspede dos olhos da mãe, imploram vida.
Olhos de mãe suspiram cansaço da vida.
Num derradeiro e forte piscar se vê expulsa ao lado da maca da mãe e canta a antiga melodia de ninar- “Era o meu lindo jangadeiro de olhos da cor verdes do mar... de olhos da cor verdes do mar.
E o choro a faz parar.
A mãe, incubada, inconsciente verte lágrimas de medo.
O fim se anuncia na sala circular.
Iris, olhos, glóbulo, ciclo.
Não há mais cheiro de jasmim dando mãos á adágios de Mahler.
O silencio arqueológico despenca sobre suas almas e duas perguntas aumentam a dor ancestral nunca antes vivenciada:
- Para onde irá nosso imenso amor?
- Em que outros olhos poderei mergulhar e tornar a me encontrar?

3 comentários:

Soninha disse...

Cláudia,

Adorei! Como sempre.

bj

Anônimo disse...

HÁ MUITO TEMPO NÃO LIA NADA TÃO COMOVENTE.MUITO LINDO O TEXTO.

Maria Lúcia Poyares disse...

Esse "imenso amor", com certeza , um dia se reencontrará...