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setembro 05, 2008

O SEGREDO DE OLGA

Todo mundo tem um segredo. Olga também. O segredo de Olga ela o guarda dentro de um saquinho de feltro lilás, bem amarradinho com fitilho dourado para protegê-lo da luz que desbota e da maresia que mofa.

Como bom segredo que é, o de Olga ninguém conhece, mas suspeitam. Algum segredo há de ter esta moça para andar por aí, de saia curta e sapatinho de verniz vermelho, toda serelepe, de nariz pra lua, dona do mundo.

Pois o segredo de Olga eu vou lhes contar. Olga sempre foi moça séria, daquelas que fazem tudo corretinho, só pra ninguém falar mal dela. Cumpre tudo à risca, tim-tim por tim-tim. Um belo dia, acordou incomodada como ela só, já sem ar de tanto se esmerar e saiu por aí olhando vitrines, numa bela manhã. Parou diante de um brechó perto de sua casa, em que nunca antes reparara. Brechós nunca foram a sua cara, e jamais teria entrado num lugar tão bagunçado e cheio de quinquilharias, não estivesse em um daqueles dias em que tudo o que se quer é sair de uma enfadonha rotina. Entrou e disse logo que não queria ajuda, que estava só olhando, embora aquela bagunça, na verdade, a deixasse mais cega que outra coisa. Olhou, olhou e, quando já estava prestes a arrumar aquela desordem, fixou-se no sapatinho de verniz vermelho. Ah, que sapatinho! Não pensou duas vezes. Se tivesse pensado, não o levaria, que Olga não era dada a estas extravagâncias. Mas o sapatinho parecia dizer "me leva e não te arrependerás. Me leva, Olga." A coincidência do número foi definitiva. Levou.

Chegou à casa, tirou-o da sacola de plástico e o arrumou entre as sapatilhas pretas e marrons que revelavam a sobriedade do seu guarda-roupas. Gostou do contraste que nela provocou efeito mais interno que externo. Resolveu calçá-los e, enquanto em frente ao espelho se admirava, soou a campainha do telefone. Correu para atender do jeito que estava mesmo, enfiada em seus novos sapatinhos. Do outro lado da linha, ouviu a voz daquela que, desde de que Olga se separara, insistia em dar em cima de seu ex-marido e, ao mesmo tempo, manter com ela, Olga, uma falsa amizade. Não se sabe como, que tais atitudes não condiziam com sua personalidade, Olga disse à moça, com calma e sem faltar letra alguma, que não lhe telefonasse mais, que não queria mais ser sua amiga e que fosse ter com seu ex-marido, que este bem merecia uma mulherzinha como ela. Disse isto e desligou sem acreditar no que fizera, mas com uma felicidade que há tempos não experimentava. De tão feliz resolveu sair para aproveitar o resto da manhã. Iria à feira comprar flores! Meteu-se na feira com sapatinhos vermelhos e tudo e de lá saiu carregada de flores, frutas, peixe fresco, aspargos verdes e galanteios, muitos galanteios.

Até esta parte, não havia Olga percebido, ainda, os efeitos de sua vermelha aquisição. Debitava aqueles novos ares, apenas, ao novo momento de rara solidão que estava vivendo sem a presença dos filhos, que passavam com o pai o primeiro fim de semana após a separação do casal.
Foi ao chegar à portaria de seu prédio e encontrar, na espera do elevador, o seu vizinho do andar de baixo, que confiança alguma jamais lhe dera, que Olga passou a desconfiar de alguma esquisita transformação. Pois o homem, sempre tão discreto quanto ela, passou-lhe os olhos de cima a baixo, sem o menor pudor, acabando por fixar-se nos seus pés calorosamente reluzentes. "Gostou dos meus sapatos novos?" – perguntou-lhe. "Impressionantes" – respondeu o vizinho, como que se referindo ao todo e não mais apenas aos sapatinhos. Não é que Olga, tomada de súbita intimidade, convidou-o para almoçar com ela? "Que tal almoçarmos juntos? Um almoço de feira, peixinho ensopado, aspargos frescos e morangos de sobremesa?". Convite aceito. O vizinho parou no seu andar para pegar o vinho, e Olga subiu para o apartamento. Ao abrir a porta, uma luz clara e aconchegante, uma brisa leve que levantava as cortinas de voal encheram-lhe a alma de paz e segurança.

No fim do dia, refestalada em sua cama, tirou, acariciando-os, os sapatinhos dos pés. Guardou-os, cuidadosamente, em um saquinho de feltro lilás e entregou-se para o seu novo amor.

Um comentário:

Mônica Angeleas disse...

Letícia, uma delicia seu conto!
Bjs